#08 volpílogos
o cronômetro das flores, a chuva de likes e literatura transgressora e indisciplinar que desagrada parte da militância
murchar, desbotar
recebi flores pelo livro novo. estão uma graça. homens só costumam ganhar flores depois de mortos então me considero sortudo.
sempre achei flor uma coisa muito bonita. como podem existir tantas espécies, aromas, vida. como pode a gente entender que flores têm vida? que se você arrancar uma flor de sua raiz, por mais que você renove a água do jarro, não vai adiantar enganá-la, não por muito tempo, um dia ela vai perder o brilho, murchar, desbotar.
as flores morrem, como o amor. como as relações. como a gente.
nunca estarei pronto para morrer.
no meio editorial online veio um silêncio
nunca recebi tantos likes em uma post no substack até que resolvi falar sobre o caso da vanessa bárbara. tem duzentas curtidas.
no meio editorial online veio um silêncio. curioso. nenhum autor precisa se posicionar sobre esse caso na internet além dos envolvidos. observo essa quietude. estou falando dos profissionais do meio.
um paralelo: hoje em dia ninguém sabe que eu canto. e eu também não canto mais como antes. mas estudei canto e teatro pra saber que um cantor é um atleta de emoções, e que precisa conhecer o registro delas pelo corpo. no famoso método rasaboxes, descobrimos que energia do medo, o Bhayanaka, se localiza próximo ao ventre, nas entranhas, no plexo solar. a energia do medo comprime o diafragma, prejudica até a respiração. comprime a fala.
o medo impede a gente de falar. e a dominação muitas vezes causa medo de se comprometer.
aqui o mar mata
ainda estou aqui, envolvido pela cadeia de emoções que é ver um livro novo ser fabricado. acho bonito e consumo (de verdade) histórias que pintam as relações sociais LGBTQ+ com céu azul e nuvens de algodão, mas essa não é a minha literatura.
já ouvi algumas vezes que eu deveria trazer mais prazeres para as narrativas protagonizadas por personagens LGBTs. eu acho que a escrita precisa reconstruir mitos, sim. mas eu também penso que ninguém vive um mar de rosas. eu dou vida a personagens à margem da sociedade. aqui o mar tem ondinhas legais até, um sexo, uma amizade forte, as boas memórias, mas ele é bem turvo e perigoso, sim. aqui o mar mata.
santo de casa é um livro transgressor em muitos sentidos. indisciplinar. contraditório. catastrófico.
aqui ninguém é confiável, todos os personagens escondem segredos, ninguém é tão vilão nem tão mocinho, e todo mundo sofre. cada uma sua medida. como eu acho que é a vida acontecendo mesmo.
tem um final um tanto feliz, porém. acho importante dar esse tipo de spoiler. não sei muito bem o que é a felicidade, mas coroo a saga desses meus personagens com o que acho que eles merecem.
santo de casa é minha maior expressão artística na literatura até aqui.





oi Stefano - você viu que o substack aderiu ao discurso do musk?? gosto muito da tua news e espero que um dia ela possa migrar pra outra plataforma 😉
Parabéns, Stefano! Pelo livro, que tem a capa belíssima e pela coragem de hablar mesmo...
Pior que o silêncio no meio editorial é o sinismo. Acabei te conhecendo pelo notes, na chuva de likes, e que bom! :)