#14 volpílogos
como incendiar uma casa invadida, o vira-página que escrevi, o sabor das paixões aos 35 e suas inteirices
revoluções nunca começam com um fogaréu
não mais gosto da forma como eu tenho lidado com a internet. tenho notado uma dependência compulsiva. sinto que estou assistindo meu tempo deslizar pelas minhas mãos como se eu eu estivesse tentando agarrar água. talvez eu possa dizer que minha relação com as redes sociais se tornou algo doentio? atualizo o feed incansavelmente. minhas mãos anseiam pelo momento em que estarei com o celular. no fim do dia, sinto que não armazenei nenhuma informação útil sobre nada. sinto como se estivesse tentando me libertar de um sono profundo, de um pesadelo. sei que estou sonhando, mas não consigo acordar e gritar.
o que mais eu preciso sentir na pele para provocar uma revolução na forma como me relaciono com as redes sociais?
às vezes, penso que as revoluções nunca começam com um fogaréu. são pequenas faíscas que, alimentadas, podem se tornar algo grande, quente e finalmente capaz de provocar um incêndio. estamos realmente dispostos a assistir nossa casa pegar fogo conosco dentro? quem vai limpar essa casa depois que alguns móveis foram consumidos pelas chamas? o que sobra dessa casa e da gente sem os estímulos que os feeds nos lançam? e como reconstituir a vida depois que nosso corpo for carbonizado pelo fim da necessidade de se provar para alguém?
vai lá, agatha christie!
terminei um livro novo. um manuscrito com pouco mais de 100 mil palavras. jurei que nunca mais escreveria tanto, mas agora não importa. não quero ser criticado por acelerar o inícios e fins somente para economizar páginas de escrita.
o livro novo um thriller vira-página narrado do ponto de vista de uma investigadora da polícia civil que precisa lidar com o seguinte fato: seu filho de dezesseis anos é o maior suspeito por ter assassinado duas garotas no litoral sul de são paulo.
bomba. morte. traumas de família. conflitos geracionais. depressão pós-parto. red pill culture. cidade pequena. fofoca. imprensa. uma corrida contra o tempo em busca de uma verdade escondida sob escombros familiares. amo desgraçar uma família.
este será meu sexto livro publicado por uma grande editora e ainda me sinto bastante ansioso. experimentei cinco gêneros diferentes. escolhi retornar para o thriller doméstico e agora, resta saber se ainda consigo esconder quem matou até as últimas páginas. vai lá, agatha christie!
gostar de alguém aos 35
o j veio chegando devagar, eu também. continuamos devagar. nos vemos 1x na semana. no máximo duas. nos falamos todos os dias da primeira à última hora. não sei como uma pessoa pode parecer mais bonita a cada encontro, mas ele parece. quando ele sorri, meu coração bate um pouco mais forte. não sei se consigo ou se preciso disfarçar. falamos muito, tanto ele quanto eu. às vezes, ficamos abraçados em silêncio por longos minutos e o mundo parece desacelerar, e então nada parece existir além daquele momento e daquele abraço.
j é inteligente, articulado, sensível, contagiante, autêntico e gostosíssimo. aos poucos a gente vai se conhecendo, entendendo o quanto a gente quer se demorar na vida do outro.
acho que finalmente estou encontrando uma forma de se relacionar mais compatível com a pessoa a qual estou lapidando aos poucos: com menos urgência. estamos nessa a alguns meses. logo eu, que sou tão sapatônico pro amor.
ambos sagitarianos com ascendente em áries, o universo roda pra nós de forma parecida. de coisas mínimas (como os dois estarmos enfrentando problemas com infiltração em casa) a coisas maiores (saímos do armário no mesmo período, estivemos em cinquenta eventos aleatórios ao mesmo tempo sem jamais nos conhecermos).
conhecer uma pessoa nova é sempre uma aventura.
acho bonito olhar pra mim e pensar, bom, stefano, agora você tem 35 anos. gostar de alguém aos 35 é diferente de tudo o que você já vivei. daqui a pouco, são 40, veja só, querido. você está na melhor versão de si mesmo. este é o seu melhor momento. você já teve mais dinheiro, mais oportunidades, mais um monte de coisa. só que você nunca esteve tão consciente de si, tão inteiro. ainda rachado, mas inteiro.
então viva, se permita.
rolar pelo chão querendo carinho
estou sentado na varandinha do meu quarto assistindo ao meu gatinho peludo rolar pelo chão querendo carinho. o sol está se pondo. desta varanda posso acompanhar as últimas cores do céu. há alguns dias a vida está me dizendo: desacelere, cuide da sua mente, reescreva a forma como você vive, tente outra vez, mas tente por inteiro.
ser inteiro faz muita diferença.





nunca tenha medo de escrever um livro grande só para economizar páginas. vai por mim.
uma edição linda, como sempre!
Mais uma edição maravilhosa